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Dez
07

“São as histórias, estúpidos!” | “It’s all about the stories, stupids!”


Há dias recebi um simpático email de um leitor brasileiro, referindo-se ao meu post “É a história, estúpido!”. Apesar do meu objectivo inicial ser abordar a validade dos novos media para fazer aquilo que se faz há anos- contar estórias jornalísticamente e informar o cidadão comum- este email refere outro ponto, extremamente importante, do impacto do jornalismo do cidadão e das novas formas de se relatar a realidade: a alteração da agenda noticiosa.

Se até agora os meios eram controlados por grupos económicos, também a informação dada era. Um dos assuntos dados nas aulas de jornalismo é o agenda setting, ou seja, que temas é que são noticiáveis (entrando aqui os factores de noticiabilidade). A verdade é que todos os dias podemos verificar uma concordância de temas abordados nos noticiários, mas porque é que há alguns assuntos que não surgem no alinhamento mediático? Há claro questões de espaço/tempo, mas porque é que algum desse espaço/tempo é ocupado com assuntos que não são realmente do interesse público (apesar de apaixonarem a opinião pública) em detrimento de outros assuntos talvez humanamente mais importantes?

Esta é uma discussão infindável e que engloba imperativos comerciais. O que o jornalismo do cidadão e as novas tecnologias disponíveis podem trazer de novo é furar esta lógica e realmente trazer à tona os assuntos que interessam a um grande número de cidadãos, que não vêem a sua realidade retratada nos blocos informativos. O Cláudio Martins explica o que acontece na sua realidade.

Leia o texto completo aqui.

A few days ago, i got a kind email from a brazilian reader referring to my post “It’s the story,stupid!”. Although my main goal was to approach the value of the new media to do what is being done for years – tell stories journalistically and inform the common citizen- this email refers another extremely important issue about the impact of citizen journalism and the new ways to report reality: the changing of the news agenda.

If, until now, the media was controlled by economic groups, so was the information given. One of the subjects teached at journalism classes is the agenda setting, i.e., which events are news(newsworthiness factors are included). The truth is that almost everyday we can verify a concordance of issues presented in the news, but why there are some that are left out of the mediatic alignment? Of course there are matters of time/space, but why does some of that time/space is taken with subjects that aren’t really of public interest (though they passionate the public opinion) in prejudice of issues problaby more humanely important?

This is a neverending discussion and that includes commercial imperatives. What citizen journalism and the new media can concur with is to baffle this logic and really bring to surface the issues that matter to a large number of citizens , that can’t see their reality portrayed in the news. Cláudio Martins explains what happens in his reality.

 

 

Read more here.


“Ontem à noite eu assistia a um programa de reportagens na televisão sobre as forças especiais da polícia em seus diversos níveis aqui no Brasil e, sem me dar conta de exatamente porque, lembrei de seu artigo “É a história, estúpido”. Não sei como tem sido a pauta jornalística em Portugal, mas aqui ela tem sido monotemática. Escândalos políticos, visivelmente orquestrados por partidos rivais e a violência no Rio de Janeiro, nosso maior cartão postal. Com certeza você já ouviu falar dos morros do Rio de Janeiro. Na verdade os morros (colinas) são cinturões de pobreza que envolvem a cidade do Rio (corruptela que usamos para encurtar o texto) em que a autoridade maior é a dos traficantes.

 

O tal programa de televisão trouxe a notícia de que, em países com níveis de criminalidade controlados, as forças especiais de polícia têm de entrar em ação no máximo uma vez por mês, sendo uma média dez vezes por ano. No Rio são mais de 60 por ano. Isso dá mais de uma vez por semana. O interessante é que não passa um dia sequer que essas mensagens deixem de ser veiculadas pela mídia televisiva, que é a que atinge a grande massa de brasileiros.

 

Uma notícia que “vazou” num telejornal, em uma matéria de pouco mais de 30 segundos, de um antropólogo super respeitado no meio acadêmico, dava conta de que o tráfico de drogas pesado, aquele que realmente sustenta o crime organizado, acontece de forma surda e muda. Nas mochilas dos estudantes que descem o morro para trabalhar honestamente. Essa história só vi uma vez. E quando fui até o sítio do telejornal para ler mais, não estava lá. Só estava a guerra sangrenta entre policiais e traficantes.

 

Lembro bem das palavras do antropólogo, que dizia ser essa guerrilha uma forma de desviar a atenção e os recursos da polícia do verdadeiro trajeto das drogas. Disse inclusive, que o grosso das drogas nem sobe mais o morro. Estaria, sim, pulverizada pelos apartamentos de classe média do asfalto (aqui existem termos para identificar os territórios: morro é pobre, periferia é classe baixa e média-baixa e asfalto é classe alta). Então pesquisei o tema em jornais, revistas e sítios da internet. Não encontrei nada de significativo sobre essa grande malha de tráfico de entorpecentes. E o mais grave, segundo esse antropólogo, é que as autoridades sabem desse fato e não têm absolutamente nada o que fazer a respeito. O crime organizado é organizado mesmo. Terceirizou a logística de distribuição e desarticulou completamente a força de controle e repressão.

 

Não faz muitos dias uma comissão da ONU para a proteção dos direitos humanos esteve no Brasil e foi direto aos morros do Rio. O resultado foi o secretário de segurança pública do estado do Rio de Janeiro (aqui tem Rio de Janeiro estado e Rio de Janeiro cidade, que é a capital desse estado) enfurecido com as perguntas infantis de um burocrata que, segundo o secretário, não entendia nada de violência urbana. E parece que o chefe da tal comissão não deu muita importância às atividades sociais que acontecem nesses mesmos morros, o que deixou as autoridades do estado do Rio ainda mais enfurecidas.

 

Mas onde entra a lembrança de seu artigo? Entra quando suas palavras dizem que mudam os meios, mas a finalidade continua a mesma. E, no nosso caso, a finalidade continua sendo contar uma história conveniente aos ouvidos dos moradores do asfalto. Assistindo àquele programa de televisão, eu sacudia a cabeça e dizia para mim mesmo: “Está certo mesmo é o Alexandre. É sempre a mesma história, estúpido.”

 

É, Alexandre, juntar o aqüífero Guarani com a nova reserva petrolífera Tupi mais o turbilhão de notícias de uma guerrilha, onde toda semana morre gente inocente no Brasil, e a completa incompetência em gerir os recursos da floresta amazônica é como somar dois e dois. Não vai tardar para as tropas americanas aportarem por aqui para “conter” a violência e “preservar” recursos que pertencem à humanidade.Como diz um jornalista português que tive a sorte de conhecer pela internet: “é a história, estúpido”.”

Eu antes não tinha ido suficientemente longe, não é da estória que se trata. São as histórias. As diferentes perspectivas sobre as histórias. A de cada um, as de todos que estão a emergir por toda a internet e que por premissas económicas e políticas são deturpadas, esquecidas e ignoradas. Os estúpidos são os que se esqueceram que os restantes não o são.

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“Last night i was watching a news show about police special forces at it’s various levels here in Brazil when, without exactly knowing why, i reminded your article “It’s the story, stupid!”. I don’t know how the journalistic agenda has been in Portugal, but here it has been single themed. Political scandals, clearly orchestrated by rival parties and the violence in Rio de Janeiro, our biggest postcard. Surely you’ve heard of the hills (morros) of Rio de Janeiro. In fact, the morros are belts of poverty that surround Rio, where drug dealers rule.

That tv show gave the news that, in countries with controlled crime levels, police special forces are forced to act once a month, tops, at an average of ten times a year. In Rio it’s over 60 per year. which is more than once a week. The interesting part is that there’s not a day goes by in which those messages aren’t driven by the TV media, the most accessed by the majority of brazilians.

A news story that “leaked” in the tv news,was treated in a bit more than 30 seconds, about a highly respected anthropologist explaining that the heavy drugs traffic, the one that really supports organized crime, happens silently. In the backpacks of students that come down the hill to work honestly. I only saw that story once. And i visited the news website to read more about it, it wasn’t there. Just the bloody war between the police and the drug dealers. I remember well the anthropologist words, he said that guerilla was a way to shift the attention and police resources from the real drug course. He also said, that the bulk of the drugs doesn’t go up the hill no more. It was, in fact, spreaded by the asphalt middle class (here we have names to identify territories: hill is poor, suburb is low/middle class, and asphalt is high class). so i searched about the subject in newspapers, magazines and websites. I couldn’t find anything significative about that big net of drug traffic. And the worst, according to that anthropologist, is that the authorities know that, and do nothing about it. The organized crime is truly organized. It tertiarized the distribution logistics and totally dismantled the control and repression force.

Not so long ago, a UN comission for the human rights protection was in Brazil and went straight to the hills of Rio de Janeiro. The result was the security secretary of the state of Rio de Janeiro enraged with the childish questions of a bureaucrat that, according to the secretary, didn’t understand a thing about urban violence. And it appears that the chief of taht comission didn’t pay much importance to the social activities that happen in those same hills, which left the Rio state authorities even more angry.

But where does your article come in? When your words say that the means change but the goal is still the same. And in our case, the goal is still to tell a convenient story for the asphalt residents ears. While watching that show, i shook my head and said to myself: Alexandre is right. It’s always the same story stupid.(…)”

I didn’t go far enough last time, it’s not the story this is all about. It’s the stories.The different views over them. Each one’s, of all of us, that are emerging throughout the internet and that, because of economical and political premisses are distorted, forgotten and ignored. The stupid ones are those who forgot that the rest aren’t.

 

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